O Tempo

Durante toda essa semana acordei muito além do horário que deveria. Em todos os dias o primeiro pensamento foi “será que hoje é sábado?”, com exceção de quinta, porque pensei que era domingo. Teve chuva torrencial que me atrasou em 40 minutos, teve sonho de romance que me prendeu na cama por 1 hora a mais.

 

Hoje foi o dia em que acordei mais cedo, com uma preguiça de tirar as roupas, abrir o chuveiro... é impossível não pensar em administração do tempo em dias como estes. Na minha cabeça não faz muito tempo que tive beijos roubados,  que fui de noite à praia, que tive febres loucas, que fugi do trote...

 

Assim eu fico, com essa sensação de domingo à tarde... a mesma sensação que os velhos têm de que está acabando, de que falta pouco... mas eu só tenho 21 anos e o fim de semana ainda nem começou! Essa ansiedade desmedida e inoportuna acaba por me cegar. Sempre tenho a impressão de que aproveitaria mais se não olhasse no relógio, se não me preocupasse com o céu escurecendo.

 

Eu sei que vai chover conselhos de amigos queridos, dizendo pra eu relaxar. Eu sei que preciso relaxar. E eu vou até tentar, mas não prometo nada.

"O vento toca o meu rosto
Me lembrando que o tempo vai com ele
Levando em suas asas os meus dias,
Desta vida passageira..."

(O Tempo - Juninho Afran - Oficina G3) 

Quando eu tinha uns 8 anos, não sabia exatamente do que eu gostava de escutar. Ouvia bastante rap e gritava quando o Dominó aparecia na TV... pra mim o Affonso Nigro era o cara! rs Eu chorava de medo quando escutava o Renato cantar “estamos indo de volta pra casa”(Por Enquanto-Legião Urbana). Mas de uma coisa eu tinha certeza: eu odiava quando minha mãe colocava um disco que tinha “Fio de Cabelo” ao vivo, além de Galopeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeiiiiiiiiiiiraaa e muitas outras. Foi só alguns anos depois que eu fui morar no Paraná, fui curtir rodeio, fui achar graça em cowboy, comprar todos os CDs dos shows Amigos e do Marco Brasil...

Aos sábados de manhã, logo nos primeiros acordes da viola eu já esbravejava no meu quarto, dizendo “tira isso”, ao que minha mãe respondia: - Hoje acordei apaixonada!

Na época eu não podia entender o que isso queria dizer, sempre fui precoce, mas nem tanto! Hoje entendo perfeitamente. Tem dias em que a gente acorda apaixonada, inspirando e espirando paixão. Nem precisa ser por ninguém, embora eu insista que o cara que musicou “eu me apaixono todo dia” era um gênio! Tem dia que a gente acorda e vê um mundo que não estava lá ontem... lentes cor-de-laranja, azuis (odeio rosa!)... eu acho isso normal, mas tem gente que não me entende.

Essa noite tive um sonho estranho (e quando é que eu não tenho?). e acordei apaixonadinha (não pelo cara do sonho). Se eu não tivesse acordado tão atrasada, teria mandado muitas mensagens para meu namorado, ligado para meus amigos, brincado com meus cachorros... mas não dava tempo, então guardei o que eu sentia dentro de mim. E até que foi bom, porque o dia está muito cinza e mesmo que eu goste de chuva e de frio, acho que os dois não combinam. E aí é que mora o perigo: nunca é boa idéia guardar uma paixão... quando trancada e sem alimentação, a paixão morre! A minha ta morrendo lentamente ao longo do dia, depois de tantos cálculos e tantas vitrines... acho que vou ter que ouvir um pouco de “um pedacinho dela que existe, um fio de cabelo no meu paletó-ó”...
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BRASIL, Sudeste, Mulher, de 20 a 25 anos, publicidade, evangélica
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